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POSTAGEM DE BLOG

Huntington – O caminho de um mercador🧵

  • Foto do escritor: Fox Hunt
    Fox Hunt
  • 15 de mai.
  • 9 min de leitura

Na última publicação, lançámos um olhar sobre o passado sombrio de Patroria. Sobre uma época em que o medo, a violência e a opressão determinavam a vida das pessoas. Mas a história não é feita apenas de grandes revoltas, muralhas derrubadas e nomes que mais tarde continuam vivos em canções. 🕯️

A história também é feita de pessoas individuais. 👤

Daqueles que se levantavam de manhã sem saber que, um dia, o seu caminho faria parte de algo maior. 🌅

Hoje regressamos àqueles anos em que as intrigas, a crueldade e o entretenimento sangrento do povo atingiram o seu amargo auge. Cerca de 5 anos antes de o descontentamento sussurrado se transformar em resistência aberta e Huntington mudar para sempre. ⏳

Esta história não começa com um príncipe. 👑

Nem com um comandante militar. ⚔️

Nem com um herói cujo nome já figurava em antigos estandartes. 🛡️

Começa com um jovem que nem sequer sabia exatamente que idade tinha. 👤

Dizia que tinha 25 anos. 🔢

Não porque o soubesse com certeza. Mas porque 25 lhe parecia certo. Velho o suficiente para já não ser tratado como um rapaz. Jovem o suficiente para ainda acreditar num futuro que pudesse ser melhor do que o presente. 🌤️

Não conhecia o seu verdadeiro aniversário. 🕯️

Nem o nome dos seus pais. 🖤

Tudo o que sabia sobre os seus primeiros anos de vida vinha dos relatos de um mercador ambulante que outrora o encontrara à beira de uma antiga rota comercial, ali onde a erva, o musgo e as raízes já começavam a cobrir os sulcos deixados pelas carroças. Uma criança pequena e suja, a tremer de frio, com olhos demasiado grandes e força de menos nos braços magros. Se na altura tinha 3 ou 5 anos, ninguém sabia ao certo. Talvez fosse um pouco mais novo. Talvez um pouco mais velho. 🌿

Naqueles dias, ninguém fazia muitas perguntas quando uma criança sem nome aparecia entre rodas de carroças, erva húmida e desconhecidos de passagem. 🛞

Alguns desviavam o olhar. 👁️

Outros apressavam o passo. 🚶

Hubert parou. 🐴

Hubert não era um homem rico. Não era um santo. Não era um herói das histórias antigas. Era um mercador roliço e bem-disposto, de rosto aberto, riso largo e aquela calma calorosa própria das pessoas que já viram muito e, ainda assim, conservaram um bom coração. Debaixo do seu chapéu largo, brilhavam olhos atentos, nos quais havia mais bondade do que se encontrava muitas vezes naqueles dias. O seu manto escuro de viagem caía-lhe pesadamente sobre os ombros e, embora Hubert parecesse bastante tranquilo, nada havia de preguiçoso na sua maneira de ser. Era um daqueles homens que não precisavam de se apressar para continuar a avançar. 🧥

Peter puxava a sua carroça. 🐎

Um cavalo forte e vigilante, de olhos inteligentes, orelhas erguidas e um instinto em que Hubert há muito confiava mais do que no de muitas pessoas. A carroça atrás dele rangia suavemente pela velha rota comercial, carregada de rolos de tecido, caixas, fardos, panos enrolados e todo o tipo de mercadorias que Hubert levava de lugar em lugar. Entre linho, lã, restos de couro, pequenas ferramentas e pacotes cuidadosamente atados, mal restava espaço livre. 🧵

Mas, nesse dia, Peter parou de repente. 🐴

Não lentamente. ✋

Não com hesitação. ⏳

Simplesmente parou. 🐎

No início, Hubert apenas resmungou algo incompreensível para dentro da barba, puxou ligeiramente as rédeas e quis continuar. Mas Peter não se mexeu. O cavalo baixou a cabeça, virou as orelhas para a frente e olhou para a beira da rota comercial, ali onde a erva, o musgo e as raízes já começavam a cobrir os antigos sulcos das carroças. 🌿

Só então Hubert viu a criança. 👁️

Um pequeno e sujo embrulho humano à beira do caminho. 🖤

A tremer. ❄️

Perdido. 🌫️

E demasiado sozinho para um mundo como aquele. 🕯️

Mais tarde, Hubert nunca disse que Peter tinha salvado a vida do rapaz. 🐴

Mas talvez tenha sido exatamente isso que aconteceu. ✨

Levou o rapaz consigo. 🤲

Não porque fosse fácil. Não porque tivesse espaço. E certamente não porque uma criança esfomeada numa carroça de mercador prometesse qualquer lucro. Levou-o consigo porque havia coisas que, mesmo em tempos sombrios, não podiam ficar por fazer. 🕯️

Assim, o rapaz não cresceu numa casa fixa, nem debaixo de um teto familiar, nem com histórias sobre uma longa linhagem de família. 🏚️

Cresceu com Hubert. 🧔‍♂️

Com o homem que o tinha encontrado. Com o homem que tinha ficado. Com o homem que se tornou um pai para ele, embora o rapaz soubesse sempre que a sua própria origem jazia algures na escuridão. ❤️

E Peter? 🐴

Peter continuou a ser o cavalo protetor ao lado deles. Vigilante, calmo e mais fiel do que muitas pessoas alguma vez foram. 🛡️

Muitos anos depois, quando a pequena criança se tornara um jovem, o seu caminho acabaria por levá-lo a Huntington. 🌉

Quem olha para Huntington hoje vê uma capital magnífica. 🏰

Mas naquela altura ainda não era isso. 🕰️

Ainda não. ⏳

Huntington era uma pequena cidade insular, mas orgulhosa. 🏝️

Não tinha muralhas imponentes 🧱, nem torres esplêndidas 🏰, e as suas ruas não eram as mais largas. 🛤️

Mas Huntington tinha algo que outras cidades não possuíam. 🏘️

Uma localização que muitos lhe invejavam. 👁️

Pois Huntington não ficava simplesmente junto ao Torulpin. 🌊

Huntington ficava no Torulpin. 🌊

Os antigos chamavam-lhe Torulpin, a raposa em fuga. Não porque ali vivessem raposas, mas porque o próprio rio parecia uma raposa: astuto no seu curso, veloz nas suas correntes, difícil de apanhar e nunca onde se esperava que estivesse. À volta de Huntington, curvava-se como um animal em fuga — e precisamente por isso a cidade na sua ilha tornou-se um lugar que todos queriam alcançar, mas que nem todos deixavam com vida. 🦊

Numa ilha no meio daquele rio poderoso e largo, Huntington repousava como um coração de pedra entre o oeste e o leste. O Torulpin atravessava todo o país como uma artéria de vida cintilante. Em muitos pontos, era tão vasto, tão profundo e tão difícil de atravessar que Huntington era muito mais do que uma simples cidade. Era passagem. Ligação. Praça de comércio. Um nó vivo entre os lados separados da terra de Calidulpia. 🏝️

Quem queria atravessar o largo Torulpin em segurança dificilmente podia evitar Huntington. Mercadores, pescadores, embarcações fluviais e protetores marítimos utilizavam igualmente os seus pontões, pontes e vias de água. Pelo Torulpin chegavam à cidade tecidos preciosos, madeira pesada, ferramentas forjadas, minério escuro, especiarias estrangeiras, couro curtido, peixe fresco e inúmeras outras mercadorias – e dali seguiam em todas as direções de Patroria. ⛵

Huntington era pequena. 🏘️

Mas Huntington era importante. ⚜️

Os armazéns raramente estavam vazios. Os mercados eram ruidosos e cheios de vida. Os mercadores apregoavam as suas mercadorias com vozes fortes, os pescadores traziam a pesca para a margem logo de manhã cedo, as carroças ribombavam pesadamente pelos caminhos pedregosos, e sobre a água pequenas embarcações deslizavam entre os braços do rio. Quem olhasse apenas com os olhos poderia acreditar que Huntington era uma cidade feliz. 🛒

Mas não era. 🕯️

Os cidadãos não sofriam de pobreza económica. A sua aflição não estava em pratos vazios nem em bancas de mercado abandonadas. A sua aflição era mais profunda. Estava nos olhares baixos. Nas palavras cautelosas. Nas portas fechadas à pressa. Nas conversas sussurradas atrás de grossas paredes. Estava naquele breve e pesado silêncio que surgia quando o nome do príncipe era mencionado. 🤐

Pois enquanto o comércio, a prosperidade e a agitação mantinham a cidade viva por fora, sob os telhados de Huntington há muito fervilhava algo que ninguém ousava dizer em voz alta. O riso na arena tornava-se mais alto, as ordens do príncipe mais duras, e o silêncio das pessoas mais frágil. 🏚️

Há quase 3 séculos, a arena lançava a sua sombra escura sobre a cidade. 🏟️

Uma construção enorme, semelhante a uma fortaleza, feita de antiga pedra clara, cujas torres altas, ameias recortadas e portões sombrios já se viam de muito longe. Vista de fora, parecia menos um lugar de entretenimento do que um castelo ameaçador, erguido para o júbilo, o sangue e a obediência. As suas muralhas estavam marcadas pela sujidade de incontáveis anos, as suas entradas abriam-se como feridas negras na pedra, e do seu interior, nos dias de combate, vinham gritos, tambores e o rugido surdo de uma multidão que há muito se esquecera do significado da compaixão. 🩸

No seu interior ficava o círculo de combate. ⚔️

Um lugar arenoso e impiedoso, cercado por paredes frias, corredores estreitos e bancadas de pedra, onde o povo gritava, ria, rugia e, por alguns instantes, esquecia o seu próprio medo. 🏟️

Ali, não eram apenas pessoas que lutavam ferozmente umas contra as outras. ⚔️

Ali, também eram soltos leões vorazes, esfomeados e brutalmente atormentados para o combate contra lutadores gravemente feridos, ensanguentados e muitas vezes sem qualquer esperança de vencer. 🦁

Por vezes, os homens e mulheres na areia já estavam feridos, exaustos ou mal conseguiam segurar as armas quando os pesados portões se abriam. Então, por um instante, tudo ficava em silêncio. Ouvia-se apenas o ranger das grades. Depois, um rugido profundo e gutural. Garras sobre pedra. Areia no ar. E por fim os gritos ensurdecedores da multidão quando as feras irrompiam no círculo de combate. 🩸

Para divertimento do povo. 🎭

Para aumentar o ouro principesco. 💰

E como cruel lembrança de que, naqueles tempos, a vida de uma única pessoa valia muitas vezes menos do que um breve instante de entusiasmo ruidoso. ⚖️

Ali, pessoas deviam perder a vida para que outras pudessem afogar, por um curto momento, a sua própria impotência no sofrimento alheio. E ali o príncipe aumentava a sua riqueza, enquanto governava uma terra pela qual há muito já não tinha coração. 🖤

Era precisamente para lá que o jovem mercador de tecidos queria ir. 🧵

Não para a arena em si. 🏟️

Mas para a Ordugnaiquus. ⚔️

Ordugnaiquus – assim se chamava aquela antiga e temida guilda de combatentes, cujo nome todos conheciam em Huntington. Estava ao serviço do príncipe, e os seus combatentes pagos eram regularmente enviados para a arena, para ali lutarem sob o olhar do povo. Para muitos, a Ordugnaiquus era um símbolo de força, disciplina e glória sangrenta. Para o jovem mercador, era a melhor oportunidade que alguma vez lhe surgira. 🛡️

Se os seus tecidos fossem ali utilizados, talvez para vestuário, camadas de proteção ou equipamento, o rumo da sua vida poderia mudar para sempre. 🧵

Talvez ouvissem o seu nome. 👂

Talvez o levassem a sério. 👁️

Talvez este fosse o primeiro passo para sair da insignificância. 🌤️

Mas antes de poder alcançar Huntington, havia outro caminho à sua frente. 🛤️

O caminho através de Umbrilva. 🌲

Umbrilva, assim chamavam as pessoas àquela floresta a oeste de Huntington – a floresta das sombras. Um nome nascido de palavras antigas: de Umbra, a sombra, e Silva, a floresta. Mas ninguém pronunciava esse nome de ânimo leve. Pois Umbrilva não era simplesmente uma floresta densa de árvores antigas e vegetação escura. Umbrilva era um lugar onde os caminhos desapareciam, as vozes ficavam suspensas entre os troncos e até viajantes experientes começavam a sentir que estavam a ser observados. 🌑

Entre as suas raízes retorcidas, depressões húmidas e troncos escuros espreitavam ladrões, armadilhas mortais e histórias sobre bestas monstruosas, das quais ninguém sabia ao certo quais eram exageradas – e quais não eram. 🐺

Para um jovem mercador de tecidos, aquele caminho era perigoso. ⚠️

Mais perigoso do que queria admitir a si próprio. 🌫️

Mas teve sorte. 🍀

No seu caminho, conseguiu juntar-se a uma guarnição principesca que também seguia para Huntington. Os soldados marchavam pelo país pesadamente armados e de rosto frio. As suas armaduras tilintavam a cada passo, as suas botas deixavam marcas profundas no solo húmido, e os seus olhares revelavam que não tinham vindo trazer esperança a ninguém. 🛡️

Não vinham proteger a cidade. 🏰

Nem por preocupação com os seus cidadãos. 👥

Nem por sentido de dever para com Calidulpia. ⚜️

Estavam a caminho para recolher as receitas da arena e os impostos devidos. 💰

Para aquele príncipe para quem a sua terra já pouco significava além de ouro, tributos e a preservação do seu próprio poder. 👑

Assim, o jovem mercador de tecidos chegou finalmente à orla da floresta. 🌲

Atrás dele ficava Umbrilva, com os seus troncos escuros, as suas depressões húmidas e os seus ruídos, dos quais nunca se podia ter a certeza se vinham de animais, do vento ou de outra coisa. Mas à sua frente, a paisagem abria-se. 🌄

E ali viu Huntington. 🏰

A cidade estava diante dele no Torulpin, rodeada de água, pontes e movimento. Na ilha, telhados, torres e muralhas apertavam-se uns contra os outros, como se a cidade se tivesse erguido contra o largo rio e, ainda assim, lhe tivesse arrancado o seu lugar. Sobre os pontões, as gaivotas gritavam, os mercadores chamavam uns pelos outros por cima da água, e ao longe soavam as pancadas surdas dos martelos, o ranger das carroças e os chamamentos dos guardas. 🌊

Por um momento, o jovem ficou parado. 👤

Não por medo. 🕯️

Mas porque Huntington parecia maior do que tudo o que ele imaginara pelo caminho. ✨

Não maior pelas muralhas. 🧱

Não maior pelas torres. 🏰

Mas maior em significado, maior em história, maior em futuro. ⚜️

A guarnição principesca voltou a pôr-se em marcha, e ele seguiu-a com o coração a bater forte. Passo a passo, aproximaram-se da larga ponte que levava da margem ocidental até à ilha. Debaixo das pesadas tábuas, o Torulpin corria impetuoso, rápido, frio e inquieto, como se a própria raposa em fuga quisesse testar todos os que desejavam entrar na sua cidade. 🌉

O jovem mercador de tecidos apertou mais o manto à volta do corpo, sentiu o peso dos seus tecidos cuidadosamente atados e olhou para a ilha coberta de edifícios de pedra. 🧵

Ali, para lá da ponte de pedra, de onde se podia ver a cruel arena, a mina produtora de pedras preciosas, o impetuoso Torulpin e tanto de Calidulpia, talvez o seu futuro estivesse à espera. 🌤️

Então pôs o pé na ponte. 🌉

E caminhou em direção ao limite próximo da cidade. 🏰


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